Sempre foi assim: aos trezentos e sessenta e cinco dias, ciclo que se repete ano a ano, faz-se retrospectiva e avalia-se o período, levando-se em conta as comemorações de aniversários, formaturas, despedidas para a eternidade de entes queridos, festas juninas, festa natalina e tudo o mais que mereceu nossa avaliação como mudanças de atitude, de residência, de ambiente de trabalho; conhecendo novos colegas, novos vizinhos e novos amigos; o comportamento do tempo: friagem rigorosa no inverno, chuvas torrenciais, enchentes, alagamentos, deslizamentos de terras, queda de pontes, desabamentos de residências, perdas de vidas, desabrigados, desalojados; secas com perdas de safras, falta de água e poeira. A temperatura chegou alta no verão, trazendo tempestades destrutivas, queda de granizo, ventanias, falta de energia, descargas elétricas da atmosfera e apagões... E pelo mundo afora, as guerras continuaram, maremotos, terremotos, ações criminosas de todas as formas e uma crise econômica assolou todo o planeta, e parecia não ter fim... Vidas e mais vidas se perderam pelas imprudências cometidas no trânsito, nos latrocínios, nos infanticídios, assassinatos por motivos fúteis; enfim uma legião de jovens, adultos e idosos deixou esta vida precocemente...
Acima uma resenha do ano de 2009. E agora, que nos espera 2010? Certamente algumas ocorrências se repetirão, mas gostaríamos que outras não. Desejamos que o ano de 2010 se iniciasse com chuvas para o reabastecimento das nossas fontes, para que a umidade faça o nascer e o crescer das plantas; que o sol continuasse a brilhar para aspergir a luminosidades, iluminar nosso planeta, fornecer energia a todos os viventes e a manter dias e noites distintamente.
Se não fosse querer demais, gostaria que neste ano que se inicia, fosse banida a violência; que se preservasse a vida, que pusesse fim às guerras, que a natureza se acalmasse, pondo fim ao aquecimento global, mantivesse temperatura da terra estática; que não houvesse terremotos, sunames e tempestades; que não houvesse falta de alimento; enfim que prevalecesse o amor, a ternura, as amizades e a justiça.
Esperemos 2010, um ano abençoado por Deus e que toda a humanidade seja alvo dessas benesses.
Esta página representa espaço destinado ao registro de artigos do autor Idomar Taufner. Opiniões acerca dos mais variados assuntos, enfim, coisas do cotidiano definidas ocasionalmente nas memórias antigas e recentes. Aceita-se comentários pertinentes aos assuntos abordados, isto é, são sempre bem-vindos.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
RETORNO À DOCÊNCIA
Há muitos anos deixei de comparecer às aulas na UVV. Parece-me que teria abandonado esse emprego, deixando, inclusive, de comunicar-me com a direção do estabelecimento, sem quaisquer explicações, mas na minha mente continuava professor, até que, tomei atitude de apresentar-me ao professor Rachid para explicar-lhe o ocorrido comigo. Não era coisa de meu costume deixar de cumprir. Para mim, as obrigações sempre tiveram prioridade, mas dessa vez, só a consciência é que me cobrava explicações, e pedidos de desculpas por ter agido desidiosamente para com a escola. Que pensavam de mim alunos, diretor, e colegas professores?
Cheguei à faculdade e me dirigi, logo, à sala dos professores. Lá se encontrava costumeiramente o professor Rachid reunido com os docentes, traçando planos estratégicos de ensino e, ao mesmo tempo, mantendo reunião informal e costumeira, ouvindo causos, piadinhas curtas de última hora e, por costume não recomendável, até questiúnculas da vida acadêmica. Ao chegar, dirigi-lhe a palavra, expliquei-lhe o porquê deixara de comparecer às aulas, fazendo lacunas em horários de minhas obrigações. Apesar de a escola ter-me descontado essas horas não trabalhadas, eu, só agora, comparecia para tentar explicar o inexplicável. Desconto de salários foi o mínimo; merecia, certamente, punições maiores, reconheço.
O diretor, depois de ouvir-me atentamente, passou-me exemplar reprimenda. Eu julguei ter meu contrato rescindido “por justa causa”, conforme dispõe o artigo 482 da CLT – (Consolidação das Leis do Trabalho) e seria nada mais que justa a punição. Mas o diretor chamou-me a não mais cometer falta dessa natureza, ficando, desta vez, aceitas minhas desculpas e justificativas devidas às enfermidades que estive acometido, consistentes de duas revascularizações do miocárdio, uma pancreatite aguda e a recente descoberta de hidrocefalia de pressão normal (HPN), durante esses vinte anos afastados da docência. E não só isso: devia retornar, adotando nova metodologia didática de trabalho, não se usando mais escritas em quadros com giz. No meu caso, ante a facilidade que tenho de escrever, poderia, a partir de títulos específicos, eu desenvolveria aulas em arquivos para serem baixados e até impressos pelos alunos. De posse desse material, minha função em sala de aula seria o desenvolvimento oral para que os alunos me acompanhassem pelo material informatizado. Já no início do período, eu deveria me adaptar às novas modalidades de aulas, coisa que, sem dúvida, modernizaria nosso ensino.
Com este acontecimento, espero que esteja redimido das minhas faltas. Continuei professor porque minhas justificativas foram aceitas. Agora, só me resta trabalhar e modernizar-me, para que esses pesadelos que povoam minhas madrugadas não voltem a ocorrer.
Cheguei à faculdade e me dirigi, logo, à sala dos professores. Lá se encontrava costumeiramente o professor Rachid reunido com os docentes, traçando planos estratégicos de ensino e, ao mesmo tempo, mantendo reunião informal e costumeira, ouvindo causos, piadinhas curtas de última hora e, por costume não recomendável, até questiúnculas da vida acadêmica. Ao chegar, dirigi-lhe a palavra, expliquei-lhe o porquê deixara de comparecer às aulas, fazendo lacunas em horários de minhas obrigações. Apesar de a escola ter-me descontado essas horas não trabalhadas, eu, só agora, comparecia para tentar explicar o inexplicável. Desconto de salários foi o mínimo; merecia, certamente, punições maiores, reconheço.
O diretor, depois de ouvir-me atentamente, passou-me exemplar reprimenda. Eu julguei ter meu contrato rescindido “por justa causa”, conforme dispõe o artigo 482 da CLT – (Consolidação das Leis do Trabalho) e seria nada mais que justa a punição. Mas o diretor chamou-me a não mais cometer falta dessa natureza, ficando, desta vez, aceitas minhas desculpas e justificativas devidas às enfermidades que estive acometido, consistentes de duas revascularizações do miocárdio, uma pancreatite aguda e a recente descoberta de hidrocefalia de pressão normal (HPN), durante esses vinte anos afastados da docência. E não só isso: devia retornar, adotando nova metodologia didática de trabalho, não se usando mais escritas em quadros com giz. No meu caso, ante a facilidade que tenho de escrever, poderia, a partir de títulos específicos, eu desenvolveria aulas em arquivos para serem baixados e até impressos pelos alunos. De posse desse material, minha função em sala de aula seria o desenvolvimento oral para que os alunos me acompanhassem pelo material informatizado. Já no início do período, eu deveria me adaptar às novas modalidades de aulas, coisa que, sem dúvida, modernizaria nosso ensino.
Com este acontecimento, espero que esteja redimido das minhas faltas. Continuei professor porque minhas justificativas foram aceitas. Agora, só me resta trabalhar e modernizar-me, para que esses pesadelos que povoam minhas madrugadas não voltem a ocorrer.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
EMPREGO PRIVILEGIADO
Evandro, filho de ex-combatente, natural de São Paulo do Rio Perdido, convidou-me a visitar aquela região para uma rápida passagem pela casa do Alberto, primo do seu pai. Primeiramente passamos pela BR-101 e depois enveredamos pela BR-259, chegando a Colatina. Nesta cidade convidou um rapaz para fazer-nos companhia. Aos poucos eu percebia que, pelas conversas de Evandro, ele dava conta de que grande empreendimento estava para chegar ao Estado, falava no geral sem particularizar os assuntos, empregava linguagem metafórica, de tal modo que nos motivasse a meditar sobre conteúdos desses diálogos
Em Colatina, como era horário de almoço, o restaurante “Drink” era opção certa, pois ali a casa era tradicionalmente famosa pelos serviços especializados no fornecimento de peixadas e onde, sempre, como de costume, servia as famosas lagostas de água doce, afora pratos elaborados com cortes especiais de carne bovina, suína, de ave e tipos de iguarias exóticas provenientes de caças da rica fauna da mata atlântica. Foi boa opção, pois além das iguarias que saboreamos, desfrutamos do conforto da casa em agradável ambiente climatizado. De conversa em conversa, Evandro fornecia pistas sobre atividades que seriam implantadas pelo novo empreendimento, porém, quando indagado, ele falava de maneira a nos explicar tudo com sutileza e afirmações evasivas, deixando-nos mais dúvidas que certezas.
Nós viajávamos em três pessoas: Evandro, um rapaz de quem não lembro o nome e eu. Quando nosso principal personagem falava, para cada um de nós, ele tinha linguagem diferente, usava sempre que possível os jargões de cada atividade profissional nossa. Assim, cada um procurava se comunicar, como estivesse falando com pessoa de atividade comum à sua. Comigo, ele falava sobre contabilidade, auditoria, administração financeira, assunto de economia, matemática e estatística (aí é que se podia, embora não clara, ver a intenção do nosso entrevistador em relação a cada um de nós). Quanto ao colega, que tinha como perfil profissional, a atividade de vendas e promoções, Evandro se mostrava profundo conhecedor das suas habilidades e ele, neste caso, sentia-se a vontade para expressar suas experiências.
Mas nossa viagem prosseguiu, passando por São Roque do Canaã, São João de Petrópolis e Santo Antônio do Canaã, local onde paramos por alguns minutos para prosseguir viagem no sentido de Várzea Alegre, através de moderníssima via pavimentada e inaugurada pelo governo do Estado do Espírito Santo recentemente.
De Várzea Alegre, rumamos no sentido de São Paulo do Rio Perdido, pois Evandro desejar passar por essa localidade que lhe trazia boas recordações da infância que viveu ali. Viu tudo diferente: o grupo escolar em que cursou as primeiras séries do antigo curso primário, hoje, não passava de depósito que servia a um comerciante instalado num prédio de dois andares construído, fazendo frente para a estrada, ainda de chão. A igreja já não era a mesma. Fora demolida e uma edificação moderna ocupava seu lugar. O cemitério, em que assistiu a inúmeros funerais, exibia a mesma fachada, embora no seu interior, muitos jazigos havia, além daqueles antigos do seu tempo de infância, e um rio que se formava de pequenos cursos de água provenientes daquelas montanhas, hoje, nada mais era do que pequeno córrego que se seca quase que completamente durantes os meses secos. Ali era o local predileto para pescar grandes traíras e bagres e eram grandes mesmo!
Subindo agora por uma estrada nova em que somente pedestres e cavaleiros a utilizavam antigamente, chegamos à casa do primo de seu pai, o Alberto, irmão de Gercino, Laurindo e Catarina. Chegamos e fomos recebidos por Alberto que nos convidou a entrarmos em sua casa. Tomamos água para aplacar a sede e nessa casa podíamos apreciar o frescor da brisa que vinha das bandas de alguns capões de mata atlântica, ainda restantes, abrigo natural de pássaros como os laçaris, maracanãs, juritis, corujas e os temíveis gaviões, cujo pio faz pássaros e galináceos sentirem-se aterrorizados.
Catarina, dirigindo-se ao primo Evandro, indagou se aceitaríamos lanchar com eles, costume familiar nesse horário de 15 horas, - claro, disse Evandro, coisa que nos aliviou, pois, realmente, sentíamo-nos famintos, depois de longas horas por essas estradas, quando de terra, poeirentas. E foi assim que Catarina nos serviu café, pão caseiro, queijo e leite, resultantes derivados da ordenha de vacas ali nessa propriedade. Depois de satisfeitas nossas necessidades de alimentos, cuidamos das conversas com nosso anfitrião e, em dado, momento em que eu e Evandro tivemos oportunidade de conversar a sós, ele me fez proposta de emprego nessa empresa que se instalaria brevemente em solo capixaba. No meu caso, ele me propunha ocupar um cargo de contoller, abrangendo toda a administração financeira e contábil, controlar custos e fluxos de caixa para acompanhar o movimento e de receitas e despesas e mais uma série de encargos de natureza contábil. Perguntei: - e o salário? Respondeu-me: de 15 a 20 mil reais, neles não incluídas as despesas de viagens, cujo ônus estaria a cargo da empresa. Perguntou-me: - aceita? – Sim, aceito, respondi. - Então, assim que estiver na matriz, cuidarei da oficialização do seu emprego e logo, logo, lhe darei notícias. – Há detalhes que combinaremos oportunamente, quanto ao local em que será sua sede de trabalho, que poderá ser em qualquer cidade do Espírito Santo, de preferência, dessas da região centro serrana. Quanto ao rapaz que era entrevistado com vistas a fazer parte de uma equipe de vendas, nada soube a respeito do salário que lhe foi proposto. Ele, ao que me parece, chefiaria o departamento de vendas, formando uma equipe de funcionários subalternos ao seu redor.
Nessa época de ascensão da economia, os salários são generosos, mas as exigências de experiência comprovada e da demonstração de conhecimentos e eficiência nos cargos é condição normal e obrigatória.
De Várzea Alegre, deveríamos retornar a Vitória, mas entardeceu e a noite chegou celeremente. Com isto, resolvemos aceitar a hospitalidade e pernoitaríamos na casa de Alberto.
Ao amanhecer do dia seguinte percebi que dormia confortavelmente na minha cama. E o emprego de 20.000 reais? Bem, talvez no próximo sonho, esse sonho possa se tornar realidade. Quem sabe...
Em Colatina, como era horário de almoço, o restaurante “Drink” era opção certa, pois ali a casa era tradicionalmente famosa pelos serviços especializados no fornecimento de peixadas e onde, sempre, como de costume, servia as famosas lagostas de água doce, afora pratos elaborados com cortes especiais de carne bovina, suína, de ave e tipos de iguarias exóticas provenientes de caças da rica fauna da mata atlântica. Foi boa opção, pois além das iguarias que saboreamos, desfrutamos do conforto da casa em agradável ambiente climatizado. De conversa em conversa, Evandro fornecia pistas sobre atividades que seriam implantadas pelo novo empreendimento, porém, quando indagado, ele falava de maneira a nos explicar tudo com sutileza e afirmações evasivas, deixando-nos mais dúvidas que certezas.
Nós viajávamos em três pessoas: Evandro, um rapaz de quem não lembro o nome e eu. Quando nosso principal personagem falava, para cada um de nós, ele tinha linguagem diferente, usava sempre que possível os jargões de cada atividade profissional nossa. Assim, cada um procurava se comunicar, como estivesse falando com pessoa de atividade comum à sua. Comigo, ele falava sobre contabilidade, auditoria, administração financeira, assunto de economia, matemática e estatística (aí é que se podia, embora não clara, ver a intenção do nosso entrevistador em relação a cada um de nós). Quanto ao colega, que tinha como perfil profissional, a atividade de vendas e promoções, Evandro se mostrava profundo conhecedor das suas habilidades e ele, neste caso, sentia-se a vontade para expressar suas experiências.
Mas nossa viagem prosseguiu, passando por São Roque do Canaã, São João de Petrópolis e Santo Antônio do Canaã, local onde paramos por alguns minutos para prosseguir viagem no sentido de Várzea Alegre, através de moderníssima via pavimentada e inaugurada pelo governo do Estado do Espírito Santo recentemente.
De Várzea Alegre, rumamos no sentido de São Paulo do Rio Perdido, pois Evandro desejar passar por essa localidade que lhe trazia boas recordações da infância que viveu ali. Viu tudo diferente: o grupo escolar em que cursou as primeiras séries do antigo curso primário, hoje, não passava de depósito que servia a um comerciante instalado num prédio de dois andares construído, fazendo frente para a estrada, ainda de chão. A igreja já não era a mesma. Fora demolida e uma edificação moderna ocupava seu lugar. O cemitério, em que assistiu a inúmeros funerais, exibia a mesma fachada, embora no seu interior, muitos jazigos havia, além daqueles antigos do seu tempo de infância, e um rio que se formava de pequenos cursos de água provenientes daquelas montanhas, hoje, nada mais era do que pequeno córrego que se seca quase que completamente durantes os meses secos. Ali era o local predileto para pescar grandes traíras e bagres e eram grandes mesmo!
Subindo agora por uma estrada nova em que somente pedestres e cavaleiros a utilizavam antigamente, chegamos à casa do primo de seu pai, o Alberto, irmão de Gercino, Laurindo e Catarina. Chegamos e fomos recebidos por Alberto que nos convidou a entrarmos em sua casa. Tomamos água para aplacar a sede e nessa casa podíamos apreciar o frescor da brisa que vinha das bandas de alguns capões de mata atlântica, ainda restantes, abrigo natural de pássaros como os laçaris, maracanãs, juritis, corujas e os temíveis gaviões, cujo pio faz pássaros e galináceos sentirem-se aterrorizados.
Catarina, dirigindo-se ao primo Evandro, indagou se aceitaríamos lanchar com eles, costume familiar nesse horário de 15 horas, - claro, disse Evandro, coisa que nos aliviou, pois, realmente, sentíamo-nos famintos, depois de longas horas por essas estradas, quando de terra, poeirentas. E foi assim que Catarina nos serviu café, pão caseiro, queijo e leite, resultantes derivados da ordenha de vacas ali nessa propriedade. Depois de satisfeitas nossas necessidades de alimentos, cuidamos das conversas com nosso anfitrião e, em dado, momento em que eu e Evandro tivemos oportunidade de conversar a sós, ele me fez proposta de emprego nessa empresa que se instalaria brevemente em solo capixaba. No meu caso, ele me propunha ocupar um cargo de contoller, abrangendo toda a administração financeira e contábil, controlar custos e fluxos de caixa para acompanhar o movimento e de receitas e despesas e mais uma série de encargos de natureza contábil. Perguntei: - e o salário? Respondeu-me: de 15 a 20 mil reais, neles não incluídas as despesas de viagens, cujo ônus estaria a cargo da empresa. Perguntou-me: - aceita? – Sim, aceito, respondi. - Então, assim que estiver na matriz, cuidarei da oficialização do seu emprego e logo, logo, lhe darei notícias. – Há detalhes que combinaremos oportunamente, quanto ao local em que será sua sede de trabalho, que poderá ser em qualquer cidade do Espírito Santo, de preferência, dessas da região centro serrana. Quanto ao rapaz que era entrevistado com vistas a fazer parte de uma equipe de vendas, nada soube a respeito do salário que lhe foi proposto. Ele, ao que me parece, chefiaria o departamento de vendas, formando uma equipe de funcionários subalternos ao seu redor.
Nessa época de ascensão da economia, os salários são generosos, mas as exigências de experiência comprovada e da demonstração de conhecimentos e eficiência nos cargos é condição normal e obrigatória.
De Várzea Alegre, deveríamos retornar a Vitória, mas entardeceu e a noite chegou celeremente. Com isto, resolvemos aceitar a hospitalidade e pernoitaríamos na casa de Alberto.
Ao amanhecer do dia seguinte percebi que dormia confortavelmente na minha cama. E o emprego de 20.000 reais? Bem, talvez no próximo sonho, esse sonho possa se tornar realidade. Quem sabe...
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
COISAS DE VÁRZEA ALEGRE
Não posso passar algum tempo sem voltar a Várzea Alegre. Com certeza essa não é a Várzea Alegre atual, talvez seja a de 1958, de acordo com pessoas que viviam por lá e fatos que ocorriam nessa contemporaneidade.
Eis os fatos que ocorriam, dos quais me lembro:
Trabalhava numa farmácia em que meu pai e João Romélio Zonta eram sócios, eu era o representante do meu pai nesse negócio, que se localizava num ponto comercial de um imóvel pertencente aos irmãos Oscar e Luiz Pacífico. Hoje, e, em outras oportunidades de visitas, o estabelecimento, na minha memória jamais teria se mudado de lá, ainda, mesmo na atualidade, convivendo com mais duas farmácias, a nossa permanece lá e intacta. É bem verdade que durante mais de cinquenta anos, aquelas instalações, aqueles enormes vidros de xaropes, elixires, vinhos reconstituintes de marcas diversas, litros e mais litros de álcool, éter sulfúrico, tintura de iodo, solução de mercúrio cromo, todos estão lá. Bem verdade que empoeirados e com rótulos esmaecidos e amarelados pela ação do tempo. Nesta madrugada fazia limpeza e arrumação nas prateleiras, varria o chão com uma vassoura deixada comigo por uma moça loura, empregada doméstica de dona Wilma e Romélio. Ela me fazia uma recomendação: “- cuide bem desta vassoura, pois dona Wilma, minha patroa, sempre me recomenda isso”. Eu dizia a tal moça que poderia ficar tranquila, pois eu varreria toda a sujeira da farmácia e teria o máximo cuidado com a vassoura de dona Wilma.
Romélio atendia um cliente – pessoa da família Mognatto, de Tabocas e eu cumprimentei esse senhor. Ele, simplesmente, ignorou meu cumprimento, como se nem tivesse ouvido o que lhe disse. É bom que se diga, o povo de Várzea Alegre tinha grande admiração e respeito por Romélio; quanto a mim, nessa época, já sofria rejeição, que se agravou mais tarde quando me tornei titular desse estabelecimento farmacêutico – coisas reais sofridas por mim, que viriam a me afetar seriamente.
A casa que Romélio e eu construímos, ao lado de uma ponte que há sobre o Rio Santa Maria do Rio Doce estava pronta e habitada por Romélio e sua esposa, somente o casal, pois seu primogênito havia falecido e, ainda, não tinham mais filhos. Quanto à farmácia, sua localização permanecia no imóvel dos irmãos “Pacífico” e, na minha mente, permanece lá tal e qual a sua instalação original.
Sempre que retorno a Várzea Alegre, revejo nossa farmácia e fico preocupado porque me parece que continuamos sem pagar os alugueres do ponto comercial. Falei sobre isso a Romélio e ele me advertiu: “- não toque nesse assunto e lembre-se que por muitos anos pagamos alugueres ao velho “Baratela”, pai do atual proprietário do imóvel. Portanto, não toque nesse assunto e ponto final”.
Martinho Bieth me ofereceu para que eu comprasse os imóveis de sua propriedade, a casa aonde residia e a barraca aonde funcionava sua tenda de ferreiro. Pensei: que faço com essas casas? Não sou ferreiro, embora domine um pouco do ofício de serralheiro, por ter participado, por algum tempo, do curso de serralheria na Escola Técnica Federal. Poderia, sim, ampliar essa oficina, acrescentando aparelhagens de solda acetilênica e de solda elétrica. Poderia também expandir o negócio, produzindo grades, portas de aço, além de foices, roncas, facões, apontar picaretas, alavancas; enfim ferramentas diversas. Mas, e a farmácia? Desistiria simplesmente, ou cuidaria dessa profissão como alternativa, contratando profissionais ferreiros, serralheiros e funileiros? Agora pergunto: “– porque nosso ferreiro teria resolvido desfazer-se de seu negócio e posto a venda, tanto sua residência como sua oficina? Até hoje não teria entendido se isso fosse verdade; seria?
Num determinado dia, Várzea Alegre vivia festividades, e multidões de pessoas teriam acorrido lá para participarem da festa de inauguração da nova igreja dedicada a Nossa Senhora do Bom Parto, a padroeira da localidade. Nesse dia falava com Luiz Lucas, Valentim Simoura, Silvino Araujo, Sebastião Pivetta, Pedro Corteletti, Antônio Roccon, Pietro Sperandio Pierazzo, Antônio Zanotti, Theodoro Zanotti, Guilherme Zanotti e outros integrantes dessa numerosa família.
Apesar da idade de 16 anos, eu vivia em pleno período da adolescência, tinha uma namorada de quem eu era apaixonado, como diriam: encantamentos da juventude! Quanto ao resto, eu fazia o que todos os rapazes da minha faixa etária eram capazes; trabalhava na farmácia, freqüentava a igreja e, nessa época, era costumeiro nas tardes de sábado e de domingo realizarem-se sorteios de prendas e leilões com objetivo de arrecadar recursos para a igreja, mas no ponto alto desses encontros foram realizados durante todas as tardes do mês de maio, época consagrada a Maria Santíssima. E fazíamos mais: freqüentávamos bailes realizados em residências de todo o entorno, época que ainda não havia energia elétrica, sendo normal a iluminação dessas salas de baile com lamparinas e lampiões a querosene. Os instrumentos musicais consistiam em concertinas, acordeons e pandeiros e as danças varavam noites e madrugadas. Nem é preciso dizer que o combustível fartamente usado era cachaça, daquela pura que boi, nem passarinho bebem! Mas, o que reinava era a alegria! Ah! Se esse tempo voltasse! Com certeza, faria tudo igual e novamente! Hoje, o que vemos, também nessa Várzea Alegre são bailes realizados ao som ensurdecedor das modernas bandas e luzes negras intermitentes, não se podendo ouvir algo que se fale, nem ver direito com que se fala! Parece mesmo que o som mexe com o estômago e os intestinos. Hoje é assim mesmo!
Havia outra diversão frequentemente realizada – as pescarias com rede de arrasto, evoluindo, depois, para o uso das redes três malhas, assim que chegou à localidade o dentista de nome Pedro Ponche o “Tutu”. Daí por diante a pesca se tornou predatória, quase extinguindo toda a fauna ictiológica desses pequenos rios, pois esse dentista pertencia a uma família originalmente habitante das margens do Rio Doce, que tinha na pesca a sua principal atividade. Conseguíamos capturar peixões enormes, alguns chegavam ao peso de até 300 gramas. Mas, como eram grandes! Ao final de uma pescaria com duração de 4 a 5 horas, alguns goles de cachaça para não se resfriar, a gente conseguia a façanha de pescar uns três a quatro quilogramas desses peixes compostos de acarás, cascudos, traíras, piaus, piabas e alguns dos terríveis mandis, até alguma cumbaca.
Como era bela a visão que se tinha, quando se desembarcasse em Caldeirão, aonde residia uma família Magdalon, em local extremo do município de Santa Teresa, quase na chegada da Serra do “Caratinga”. De lá se podia avistar toda a baixada de Várzea Alegre. Se fosse de setembro a dezembro tudo o que se via era enormes e verdes milharais; de janeiro a março, todo aquele verde dava lugar à cor amarelada das folhas e palhas do milho maduro e, de abril a agosto podia-se ver alguns tapetes verdes das plantações de feijão e a terra novamente ia sendo desnudada para que novos plantios dos cereais arroz e milho fossem renovados. Sinto saudade desse tempo. Mas, hoje, esta mesma paisagem geográfica é representada por cafezais que cobrem desde margens dos rios Santa Maria e Várzea Alegre às fraldas das montanhas circundantes da grande baixada. Entre um e outro cafezal, há plantios de hortaliças compostas por tomateiros, plantios de inhame, de pimentões, pepinos, de jiló, de batata-doce, de feijão de vagem e de quiabo.
As visões de Várzea Alegre povoam a minha mente durante e principalmente nas madrugadas; vejo a localidade antiga, a meio antiga e a contemporânea. Nesses sonhos, épocas se misturam: coisas antigas, coisas meio antigas e atuais. As idades passadas parecem atuais; e as atuais estão junto às antigas, tudo se misturando na mente, mas nitidamente. Quando rememoro esses fatos no consciente tenho como definir precisamente personagens e épocas. Mesmo assim, sinto satisfação ao rever fatos de quaisquer épocas.
Eis os fatos que ocorriam, dos quais me lembro:
Trabalhava numa farmácia em que meu pai e João Romélio Zonta eram sócios, eu era o representante do meu pai nesse negócio, que se localizava num ponto comercial de um imóvel pertencente aos irmãos Oscar e Luiz Pacífico. Hoje, e, em outras oportunidades de visitas, o estabelecimento, na minha memória jamais teria se mudado de lá, ainda, mesmo na atualidade, convivendo com mais duas farmácias, a nossa permanece lá e intacta. É bem verdade que durante mais de cinquenta anos, aquelas instalações, aqueles enormes vidros de xaropes, elixires, vinhos reconstituintes de marcas diversas, litros e mais litros de álcool, éter sulfúrico, tintura de iodo, solução de mercúrio cromo, todos estão lá. Bem verdade que empoeirados e com rótulos esmaecidos e amarelados pela ação do tempo. Nesta madrugada fazia limpeza e arrumação nas prateleiras, varria o chão com uma vassoura deixada comigo por uma moça loura, empregada doméstica de dona Wilma e Romélio. Ela me fazia uma recomendação: “- cuide bem desta vassoura, pois dona Wilma, minha patroa, sempre me recomenda isso”. Eu dizia a tal moça que poderia ficar tranquila, pois eu varreria toda a sujeira da farmácia e teria o máximo cuidado com a vassoura de dona Wilma.
Romélio atendia um cliente – pessoa da família Mognatto, de Tabocas e eu cumprimentei esse senhor. Ele, simplesmente, ignorou meu cumprimento, como se nem tivesse ouvido o que lhe disse. É bom que se diga, o povo de Várzea Alegre tinha grande admiração e respeito por Romélio; quanto a mim, nessa época, já sofria rejeição, que se agravou mais tarde quando me tornei titular desse estabelecimento farmacêutico – coisas reais sofridas por mim, que viriam a me afetar seriamente.
A casa que Romélio e eu construímos, ao lado de uma ponte que há sobre o Rio Santa Maria do Rio Doce estava pronta e habitada por Romélio e sua esposa, somente o casal, pois seu primogênito havia falecido e, ainda, não tinham mais filhos. Quanto à farmácia, sua localização permanecia no imóvel dos irmãos “Pacífico” e, na minha mente, permanece lá tal e qual a sua instalação original.
Sempre que retorno a Várzea Alegre, revejo nossa farmácia e fico preocupado porque me parece que continuamos sem pagar os alugueres do ponto comercial. Falei sobre isso a Romélio e ele me advertiu: “- não toque nesse assunto e lembre-se que por muitos anos pagamos alugueres ao velho “Baratela”, pai do atual proprietário do imóvel. Portanto, não toque nesse assunto e ponto final”.
Martinho Bieth me ofereceu para que eu comprasse os imóveis de sua propriedade, a casa aonde residia e a barraca aonde funcionava sua tenda de ferreiro. Pensei: que faço com essas casas? Não sou ferreiro, embora domine um pouco do ofício de serralheiro, por ter participado, por algum tempo, do curso de serralheria na Escola Técnica Federal. Poderia, sim, ampliar essa oficina, acrescentando aparelhagens de solda acetilênica e de solda elétrica. Poderia também expandir o negócio, produzindo grades, portas de aço, além de foices, roncas, facões, apontar picaretas, alavancas; enfim ferramentas diversas. Mas, e a farmácia? Desistiria simplesmente, ou cuidaria dessa profissão como alternativa, contratando profissionais ferreiros, serralheiros e funileiros? Agora pergunto: “– porque nosso ferreiro teria resolvido desfazer-se de seu negócio e posto a venda, tanto sua residência como sua oficina? Até hoje não teria entendido se isso fosse verdade; seria?
Num determinado dia, Várzea Alegre vivia festividades, e multidões de pessoas teriam acorrido lá para participarem da festa de inauguração da nova igreja dedicada a Nossa Senhora do Bom Parto, a padroeira da localidade. Nesse dia falava com Luiz Lucas, Valentim Simoura, Silvino Araujo, Sebastião Pivetta, Pedro Corteletti, Antônio Roccon, Pietro Sperandio Pierazzo, Antônio Zanotti, Theodoro Zanotti, Guilherme Zanotti e outros integrantes dessa numerosa família.
Apesar da idade de 16 anos, eu vivia em pleno período da adolescência, tinha uma namorada de quem eu era apaixonado, como diriam: encantamentos da juventude! Quanto ao resto, eu fazia o que todos os rapazes da minha faixa etária eram capazes; trabalhava na farmácia, freqüentava a igreja e, nessa época, era costumeiro nas tardes de sábado e de domingo realizarem-se sorteios de prendas e leilões com objetivo de arrecadar recursos para a igreja, mas no ponto alto desses encontros foram realizados durante todas as tardes do mês de maio, época consagrada a Maria Santíssima. E fazíamos mais: freqüentávamos bailes realizados em residências de todo o entorno, época que ainda não havia energia elétrica, sendo normal a iluminação dessas salas de baile com lamparinas e lampiões a querosene. Os instrumentos musicais consistiam em concertinas, acordeons e pandeiros e as danças varavam noites e madrugadas. Nem é preciso dizer que o combustível fartamente usado era cachaça, daquela pura que boi, nem passarinho bebem! Mas, o que reinava era a alegria! Ah! Se esse tempo voltasse! Com certeza, faria tudo igual e novamente! Hoje, o que vemos, também nessa Várzea Alegre são bailes realizados ao som ensurdecedor das modernas bandas e luzes negras intermitentes, não se podendo ouvir algo que se fale, nem ver direito com que se fala! Parece mesmo que o som mexe com o estômago e os intestinos. Hoje é assim mesmo!
Havia outra diversão frequentemente realizada – as pescarias com rede de arrasto, evoluindo, depois, para o uso das redes três malhas, assim que chegou à localidade o dentista de nome Pedro Ponche o “Tutu”. Daí por diante a pesca se tornou predatória, quase extinguindo toda a fauna ictiológica desses pequenos rios, pois esse dentista pertencia a uma família originalmente habitante das margens do Rio Doce, que tinha na pesca a sua principal atividade. Conseguíamos capturar peixões enormes, alguns chegavam ao peso de até 300 gramas. Mas, como eram grandes! Ao final de uma pescaria com duração de 4 a 5 horas, alguns goles de cachaça para não se resfriar, a gente conseguia a façanha de pescar uns três a quatro quilogramas desses peixes compostos de acarás, cascudos, traíras, piaus, piabas e alguns dos terríveis mandis, até alguma cumbaca.
Como era bela a visão que se tinha, quando se desembarcasse em Caldeirão, aonde residia uma família Magdalon, em local extremo do município de Santa Teresa, quase na chegada da Serra do “Caratinga”. De lá se podia avistar toda a baixada de Várzea Alegre. Se fosse de setembro a dezembro tudo o que se via era enormes e verdes milharais; de janeiro a março, todo aquele verde dava lugar à cor amarelada das folhas e palhas do milho maduro e, de abril a agosto podia-se ver alguns tapetes verdes das plantações de feijão e a terra novamente ia sendo desnudada para que novos plantios dos cereais arroz e milho fossem renovados. Sinto saudade desse tempo. Mas, hoje, esta mesma paisagem geográfica é representada por cafezais que cobrem desde margens dos rios Santa Maria e Várzea Alegre às fraldas das montanhas circundantes da grande baixada. Entre um e outro cafezal, há plantios de hortaliças compostas por tomateiros, plantios de inhame, de pimentões, pepinos, de jiló, de batata-doce, de feijão de vagem e de quiabo.
As visões de Várzea Alegre povoam a minha mente durante e principalmente nas madrugadas; vejo a localidade antiga, a meio antiga e a contemporânea. Nesses sonhos, épocas se misturam: coisas antigas, coisas meio antigas e atuais. As idades passadas parecem atuais; e as atuais estão junto às antigas, tudo se misturando na mente, mas nitidamente. Quando rememoro esses fatos no consciente tenho como definir precisamente personagens e épocas. Mesmo assim, sinto satisfação ao rever fatos de quaisquer épocas.
domingo, 20 de dezembro de 2009
BELO HORIZONTE
Mais uma vez retorno a essa bela capital. Sei, apenas, que viajei sozinho, não sei para fazer o que! Seria, talvez, para comerciar pedras preciosas encontradas na região de Várzea Alegre, há poucos dias? Só sei que passei por lá durante cinco dias e parece-me que estive hospedado, como em outras ocasiões, no Hotel D. Pedro II, na Rua Curitiba – centro. A verdade é que os detalhes dessa minha estada em BH, não são lembrados. Tenho certeza que não fui a passeio. Devo ter feito essa viagem com algum objetivo profissional. Mas qual? Sei lá! Em todo o caso contarei alguns fatos ocorridos. De Belo Horizonte, mesmo, pouca coisa me lembro. Lembro, sim, que estive lá. E isso basta!
Não podia me esquecer que durante quase uma semana, choveu e fez muito frio e, eu acostumado ao calor e ao sol que reinam por aqui, não cuidei de me agasalhar convenientemente. Também, depois de todos esses dias, sem sequer ter feito um único telefonema para casa, tinha certeza: o tempo aqui para estas bandas anunciava tempestades certas! Também pudera, onde já se viu, nos dias atuais, com tantos recursos de comunicação, alguém permanecer fora de casa e não fazer um único telefonema? É meu rapaz! Puxões de orelha, cocorotes e permanecer de castigo são coisas mínimas, diante da sua falta de consideração para com sua família.
Agora, cuidemos do retorno. Lembro-me que dirigia um automóvel preto. E agora? De que marca e modelo? Basta lembrar-me que era um automóvel preto. Eu fazia essa viagem de retorno a casa através de estradas que escondiam armadilhas por todos os lados: barreiras que deslizavam, surgiam buracos na pista, que mais se pareciam com crateras, tudo causado por essas chuvas torrenciais que assolavam grande parte do Estado de Minas Gerais, especialmente na região leste. Pelo rádio, ouviam-se notícias acerca de vias interrompidas, rios que arrastavam pontes e inundações que ocorriam em várias cidades. Esse era o quadro cinzento dessa viagem; era um salvem-se quem puder!
Em um momento de pouca visibilidade que a chuva intensa causava, senti forte impacto e percebi que meu automóvel se emendara com outro que estava na dianteira. Dois autos se tornaram um e era visível que o carro da frente fazia parte do meu. Dos três ocupantes, duas eram mulheres e um garoto, aparentando ter idade de dez a doze anos. Este viajava no banco traseiro e, com o impacto foi arremessado para o banco do carona do meu automóvel, bem como de alguns pertences dos outros passageiros, dos quais me lembro de um casaco marrom, um chapéu e um vestido pretos. Longo congestionamento se formou nos dois sentidos da via e nossos carros continuavam engatados: dois formavam um! Mas, assim que o trânsito fluiu, o carro que ia a nossa frente conseguiu prosseguir viagem, distanciando-se rapidamente. Quanto ao meu, que sofreu graves avarias, não teve como prosseguir. Assim que percebi que o garoto ficara comigo, eu lhe perguntei: - e agora, como fazemos para alcançar sua mãe e sua tia? Mas ele, simplesmente, me respondeu: - nem uma é minha mãe, nem a outra é minha tia. E porque você viajava com elas? Perguntei. - Sabe, senhor, eu fui abandonado na Bahia e vim para o Espírito Santo, viajando de carona em carona até chegar a São Torquatro e como essas senhoras se hospedavam num hotel, que é próximo à estação ferroviária, me convidaram a acompanhá-las nessa viagem que fizenos até Brasília. Tenho certeza, elas não vão me esperar, não! Mas se o senhor, quando chegar, hospedar-se nesse hotel em São Torquatro, talvez elas estejam por lá, pois foi o local onde eu as conheci.
A viagem ainda foi longa, grande parte dela feita a pé, atravessando pastarias com cercas de arame farpado, córregos escorrendo muita água, devido a essas chuvas que pareciam não ter fim, escalar montanhas, capoeiras e matas, até chegarmos numa estação ferroviária, daquelas em que havia embarque de passageiros, em algum local às margens do Rio Doce. Embarcamos (não entendo, até o momento, como foi possível embarcarmos, pois estávamos imundos, encharcados e exaustos por carregar às costas nossos pertences, inclusive o vestido preto, o casaco marrom e o chapéu preto, deixados por aquelas senhoras) e prosseguimos viagem de trem num vagão de segunda classe, talvez fosse até de terceira, pois além de mercadorias, ali eram transportados animais domésticos (bois, cabras, porcos e galinhas). Agora entendo porque nos deixaram embarcar!
Passando por várias estações localizadas ao longo das margens do Rio Doce, depois essa composição férrea enveredou por uma rota destinada à capital do Estado do Espírito Santo, finalizando o trajeto na Estação Pedro Nolasco, Jardim América, município de Cariacica. Mesmo cansados física e mentalmente o garoto, meu companheiro, desembarcamos e seguimos, atravessando a Ponte do Camelo, chegando a São Torquatro, bairro da cidade de Vila Velha. Lá estava o hotel de que o garoto me falara, onde deveríamos nos hospedar. Talvez aquelas mulheres pudessem ser ali encontradas, pois era meu desejo entregar-lhes o garoto que adotaram como companheiro de viagem. Além de ter cometido falhas, não me comunicando com minha família, chegar a casa com um garoto, que não sei de onde veio, tudo poderia aumentar minhas complicações.
Na manhã do dia seguinte, acordamos, vestimos nossas roupas que mais se pareciam com molambos e, quando chegamos à portaria do hotel, vários colegas auditores fiscais aposentados me aguardavam para prestarem-me homenagem em virtude da façanha que acabava de realizar e cumprimentar-me por ocasião das festas natalinas e passagem para o ano novo. Estava ali Pedro Massariol, Cirênio de Almeida Reis e mais duas colegas de cujos nomes não me lembro. Senti-me envergonhado ante a aparência lastimável em que me encontrava, mas meus colegas me abraçaram e me cumprimentaram efusivamente.
Agora, nem me lembro do destino do garoto que me acompanhou em parte da viagem. Certamente ali nesse hotel, como ele conhecesse bem, ele mesmo encontraria seu destino. Problema maior seria chegar a casa. Deveria contratar o serviço de um taxi e pronto! Nada disso, sem que eu o soubesse já me encontrava repousando no conforto do meu leito. E os castigos? Quem disse isso? Houve algum equívoco, certamente!
Não podia me esquecer que durante quase uma semana, choveu e fez muito frio e, eu acostumado ao calor e ao sol que reinam por aqui, não cuidei de me agasalhar convenientemente. Também, depois de todos esses dias, sem sequer ter feito um único telefonema para casa, tinha certeza: o tempo aqui para estas bandas anunciava tempestades certas! Também pudera, onde já se viu, nos dias atuais, com tantos recursos de comunicação, alguém permanecer fora de casa e não fazer um único telefonema? É meu rapaz! Puxões de orelha, cocorotes e permanecer de castigo são coisas mínimas, diante da sua falta de consideração para com sua família.
Agora, cuidemos do retorno. Lembro-me que dirigia um automóvel preto. E agora? De que marca e modelo? Basta lembrar-me que era um automóvel preto. Eu fazia essa viagem de retorno a casa através de estradas que escondiam armadilhas por todos os lados: barreiras que deslizavam, surgiam buracos na pista, que mais se pareciam com crateras, tudo causado por essas chuvas torrenciais que assolavam grande parte do Estado de Minas Gerais, especialmente na região leste. Pelo rádio, ouviam-se notícias acerca de vias interrompidas, rios que arrastavam pontes e inundações que ocorriam em várias cidades. Esse era o quadro cinzento dessa viagem; era um salvem-se quem puder!
Em um momento de pouca visibilidade que a chuva intensa causava, senti forte impacto e percebi que meu automóvel se emendara com outro que estava na dianteira. Dois autos se tornaram um e era visível que o carro da frente fazia parte do meu. Dos três ocupantes, duas eram mulheres e um garoto, aparentando ter idade de dez a doze anos. Este viajava no banco traseiro e, com o impacto foi arremessado para o banco do carona do meu automóvel, bem como de alguns pertences dos outros passageiros, dos quais me lembro de um casaco marrom, um chapéu e um vestido pretos. Longo congestionamento se formou nos dois sentidos da via e nossos carros continuavam engatados: dois formavam um! Mas, assim que o trânsito fluiu, o carro que ia a nossa frente conseguiu prosseguir viagem, distanciando-se rapidamente. Quanto ao meu, que sofreu graves avarias, não teve como prosseguir. Assim que percebi que o garoto ficara comigo, eu lhe perguntei: - e agora, como fazemos para alcançar sua mãe e sua tia? Mas ele, simplesmente, me respondeu: - nem uma é minha mãe, nem a outra é minha tia. E porque você viajava com elas? Perguntei. - Sabe, senhor, eu fui abandonado na Bahia e vim para o Espírito Santo, viajando de carona em carona até chegar a São Torquatro e como essas senhoras se hospedavam num hotel, que é próximo à estação ferroviária, me convidaram a acompanhá-las nessa viagem que fizenos até Brasília. Tenho certeza, elas não vão me esperar, não! Mas se o senhor, quando chegar, hospedar-se nesse hotel em São Torquatro, talvez elas estejam por lá, pois foi o local onde eu as conheci.
A viagem ainda foi longa, grande parte dela feita a pé, atravessando pastarias com cercas de arame farpado, córregos escorrendo muita água, devido a essas chuvas que pareciam não ter fim, escalar montanhas, capoeiras e matas, até chegarmos numa estação ferroviária, daquelas em que havia embarque de passageiros, em algum local às margens do Rio Doce. Embarcamos (não entendo, até o momento, como foi possível embarcarmos, pois estávamos imundos, encharcados e exaustos por carregar às costas nossos pertences, inclusive o vestido preto, o casaco marrom e o chapéu preto, deixados por aquelas senhoras) e prosseguimos viagem de trem num vagão de segunda classe, talvez fosse até de terceira, pois além de mercadorias, ali eram transportados animais domésticos (bois, cabras, porcos e galinhas). Agora entendo porque nos deixaram embarcar!
Passando por várias estações localizadas ao longo das margens do Rio Doce, depois essa composição férrea enveredou por uma rota destinada à capital do Estado do Espírito Santo, finalizando o trajeto na Estação Pedro Nolasco, Jardim América, município de Cariacica. Mesmo cansados física e mentalmente o garoto, meu companheiro, desembarcamos e seguimos, atravessando a Ponte do Camelo, chegando a São Torquatro, bairro da cidade de Vila Velha. Lá estava o hotel de que o garoto me falara, onde deveríamos nos hospedar. Talvez aquelas mulheres pudessem ser ali encontradas, pois era meu desejo entregar-lhes o garoto que adotaram como companheiro de viagem. Além de ter cometido falhas, não me comunicando com minha família, chegar a casa com um garoto, que não sei de onde veio, tudo poderia aumentar minhas complicações.
Na manhã do dia seguinte, acordamos, vestimos nossas roupas que mais se pareciam com molambos e, quando chegamos à portaria do hotel, vários colegas auditores fiscais aposentados me aguardavam para prestarem-me homenagem em virtude da façanha que acabava de realizar e cumprimentar-me por ocasião das festas natalinas e passagem para o ano novo. Estava ali Pedro Massariol, Cirênio de Almeida Reis e mais duas colegas de cujos nomes não me lembro. Senti-me envergonhado ante a aparência lastimável em que me encontrava, mas meus colegas me abraçaram e me cumprimentaram efusivamente.
Agora, nem me lembro do destino do garoto que me acompanhou em parte da viagem. Certamente ali nesse hotel, como ele conhecesse bem, ele mesmo encontraria seu destino. Problema maior seria chegar a casa. Deveria contratar o serviço de um taxi e pronto! Nada disso, sem que eu o soubesse já me encontrava repousando no conforto do meu leito. E os castigos? Quem disse isso? Houve algum equívoco, certamente!
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
SOCORRO DIFÍCIL
Fazia trajeto em vitória embarcado num ônibus do TRANSCOL (empresa de transporte coletivo), apenas o motorista e eu; quando, de repente, chegou pedido de socorro para o resgate de funcionários e clientes de uma agência da Caixa Econômica Federal, localizada no centro dessa cidade. Acredito que estivéssemos circulando pela Enseada do Suá. Devíamos prestar socorro, dever de todos, mas como é difícil! Ufa!
O motorista desse coletivo tomou direção ao centro da cidade e o trajeto mais curto seria seguir pela Avenida Marechal Mascarenhas de Morais – conhecida como Beira Mar – e, assim que atingimos o Bairro Bento Ferreira, tornou-se impossível prosseguirmos, devido à invasão do mar em toda a extensão da via: fortes ondas avançavam sobre essa via. Seria impossível que chegássemos ao centro da cidade por essa rota. Desviamos e prosseguirmos pela Avenida Nossa Senhora da Penha com retorno pela Rua das Palmeiras para chegar à Avenida Leitão da Silva. Mas, de dificuldade em dificuldade, perdíamos tempo e o socorro se tornava, a cada momento, mais difícil. Parecia, mesmo, que se tornaria impossível.
Ao trafegarmos por essas vias, a cada trecho, mais dificuldades surgiram, ora pedestres atravessando sem qualquer segurança, ora terras deslizadas invadiam as pistas. E o motorista, sinalizando extenuante cansaço, resolveu passar-me a direção do dito coletivo. Parece-me que ele sabia acerca do meu hábito de dirigir coletivos e caminhões de carga durante madrugadas e foi o que aconteceu. Não adiantou muito, pois as dificuldades se revezavam e, com isto, perdíamos tempo. Será que chegaríamos a tempo de prestar o socorro reclamado? Ou teriam solicitado socorro alternativo?
Nada aconteceu nada, não conseguimos socorrer ninguém. Sabem o por quê? Porque nada acontecia, não havia ninguém a ser socorrido; nada havia, de verdade! Bastou que eu acordasse, quando o dia começava sua caminhada de leste a oeste e, assim, se foi mais um dos meus sonhos.
O motorista desse coletivo tomou direção ao centro da cidade e o trajeto mais curto seria seguir pela Avenida Marechal Mascarenhas de Morais – conhecida como Beira Mar – e, assim que atingimos o Bairro Bento Ferreira, tornou-se impossível prosseguirmos, devido à invasão do mar em toda a extensão da via: fortes ondas avançavam sobre essa via. Seria impossível que chegássemos ao centro da cidade por essa rota. Desviamos e prosseguirmos pela Avenida Nossa Senhora da Penha com retorno pela Rua das Palmeiras para chegar à Avenida Leitão da Silva. Mas, de dificuldade em dificuldade, perdíamos tempo e o socorro se tornava, a cada momento, mais difícil. Parecia, mesmo, que se tornaria impossível.
Ao trafegarmos por essas vias, a cada trecho, mais dificuldades surgiram, ora pedestres atravessando sem qualquer segurança, ora terras deslizadas invadiam as pistas. E o motorista, sinalizando extenuante cansaço, resolveu passar-me a direção do dito coletivo. Parece-me que ele sabia acerca do meu hábito de dirigir coletivos e caminhões de carga durante madrugadas e foi o que aconteceu. Não adiantou muito, pois as dificuldades se revezavam e, com isto, perdíamos tempo. Será que chegaríamos a tempo de prestar o socorro reclamado? Ou teriam solicitado socorro alternativo?
Nada aconteceu nada, não conseguimos socorrer ninguém. Sabem o por quê? Porque nada acontecia, não havia ninguém a ser socorrido; nada havia, de verdade! Bastou que eu acordasse, quando o dia começava sua caminhada de leste a oeste e, assim, se foi mais um dos meus sonhos.
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